Pequim não demorou a colocar em prática os compromissos assumidos perante Donald Trump. Na manhã de quarta-feira, 20 de maio de 2026, o Ministério do Comércio chinês confirmou a compra de 200 aeronaves Boeing e indicou que Pequim desejava obter a prorrogação do acordo tarifário concluído em Kuala Lumpur em 2025. A porta-voz He Yongqian especificou, durante uma conferência de imprensa, que a encomenda incluía 130 aviões de corredor único 737 MAX 8 e 70 aviões de longo curso 787-9, a serem entregues entre 2027 e 2031. O Secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, saudou imediatamente “a maior encomenda chinesa em oito anos”.
O evento é, antes de tudo, simbólico. Desde 2018 e a imposição das primeiras tarifas 'trumpianas', Pequim não tinha feito nenhuma encomenda significativa à Boeing, privilegiando a Airbus e, mais recentemente, a sua própria fabricante de aviões Comac. A dupla catástrofe dos 737 MAX, em 2018-2019, tinha acabado por congelar as relações sino-americanas em matéria aeronáutica. O regresso da China à carteira de encomendas de Seattle, com 200 aeronaves, põe fim a sete anos de afastamento comercial e devolve ao fabricante americano um horizonte industrial mais sereno.
Em troca, Washington compromete-se a fornecer à China “garantias de fornecimento” de peças sobressalentes de aeronaves e alguns componentes — uma concessão importante, uma vez que as exportações de motores e software de aviônica fazem parte dos produtos sujeitos a restrições de segurança nacional desde 2022. O Departamento de Comércio dos EUA confirmou que publicaria, até ao final do mês, uma lista revista de componentes autorizados. Esta lista deverá incluir alguns motores CFM LEAP-1B, fabricados em conjunto pela General Electric e Safran, o que não deixou de despertar a vigilância das autoridades francesas.
O segundo ponto do anúncio diz respeito à trégua tarifária assinada em Kuala Lumpur a 28 de outubro de 2025, no final de uma cimeira sino-americana concluída à margem da cimeira da ASEAN. Este acordo tinha reduzido temporariamente as tarifas recíprocas de 145% para 30% do lado americano, e de 125% para 10% do lado chinês, por um período inicial de seis meses. A trégua, já prolongada uma primeira vez em abril passado, expira agora a 10 de agosto. Pequim pede uma extensão de pelo menos doze meses, acompanhada de uma agenda precisa de desescalada.
Este duplo anúncio ocorre na sequência direta da visita de Donald Trump a Pequim, nos dias 14 e 15 de maio de 2026, a primeira visita de um presidente americano à China desde 2017. O comunicado final da cimeira, em parte revelado pela Reuters e pelo Wall Street Journal, mencionava explicitamente um componente aeronáutico “substancial” e um componente tarifário “renovável”. A ausência de números precisos tinha sido então percebida como uma fraqueza do documento — o Ministério chinês acaba, em cinco dias, de os fornecer.
As ações da Boeing subiram 4,8% na abertura de Wall Street, atingindo 245,30 dólares, o seu nível mais alto desde novembro de 2024. A capitalização do grupo recuperou em poucos minutos quase 9 mil milhões de dólares. Em Paris, a Safran e a Airbus também beneficiaram do impulso, com aumentos respetivos de 2,3% e 1,9%. Em Hong Kong, o índice Hang Seng fechou em alta de 1,4%, impulsionado pelos valores do turismo e das companhias aéreas. A Air China e a China Southern, dois dos principais destinatários prováveis da encomenda da Boeing, progrediram mais de 3%.
O entusiasmo deve, contudo, ser temperado. As encomendas anunciadas pelas autoridades chinesas são, na esmagadora maioria dos casos, “cartas de intenção” que nem sempre se traduzem em contratos firmes. Em 2017, Donald Trump regressou de Pequim com o anúncio de uma encomenda de 300 Boeings: menos de metade foi finalmente convertida em entregas. Os analistas da Cowen, aliás, recordaram, numa nota publicada esta manhã, que os 200 aviões anunciados representam apenas um pouco mais de dois anos de capacidade de produção adicional para a Boeing, ou seja, um efeito de alavancagem económica real mas não revolucionário.
A concomitância com um novo anúncio da Comac é, a este respeito, significativa. O fabricante chinês confirmou, terça-feira, 19 de maio, que entregaria 65 aeronaves C919 à China Eastern e à Air China até ao final de 2026, o que representa quase o dobro do ritmo atual. Para Pequim, a encomenda da Boeing não é, portanto, um regresso à dependência tecnológica dos anos 2000, mas uma diversificação calibrada: compra-se americano para abrir a torneira dos componentes críticos, e acelera-se paralelamente o aumento do poder industrial nacional. Uma estratégia espelhada na adotada pelos Estados Unidos em matéria de terras raras.
A encomenda dos 200 Boeings é um brilhante golpe tático para Xi Jinping: a custo simbólico nulo — a China precisa destes aviões de qualquer maneira — oferece a Donald Trump uma vitória espetacular para brandir perante a sua opinião pública. Em troca, Pequim obtém duas grandes concessões: o acesso a componentes críticos e a promessa de uma prorrogação tarifária. A Boeing, por sua vez, ganha tempo. Mas não nos enganemos: o verdadeiro vencedor a longo prazo continua a ser a Comac, que aproveita cada trégua transatlântica para recuperar o atraso. Daqui a dez anos, a frota chinesa será maioritariamente chinesa, e as encomendas da Boeing aparecerão, com o recuo, como o último grande ano americano na China.
- Quarta-feira, 20 de maio de 2026: Pequim confirma a encomenda de 200 Boeings (130 × 737 MAX 8 e 70 × 787-9), entregas 2027-2031.
- Contrapartida americana: garantias de fornecimento de peças sobressalentes e alguns motores CFM LEAP-1B.
- Pedido de extensão do acordo de Kuala Lumpur (trégua tarifária a 30% / 10%), expirando a 10 de agosto de 2026.
- Consequência direta da visita de Donald Trump a Pequim nos dias 14 e 15 de maio de 2026.
- A Boeing salta 4,8% em Wall Street, Airbus +1,9%, Safran +2,3%.
- A Comac anuncia em paralelo 65 entregas de C919 em 2026: Pequim diversifica sem renunciar à sua soberania.
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