Há apenas alguns dias, o presidente americano afirmava que um acordo de paz no Médio Oriente estava “mais próximo do que nunca”. Nesta terça-feira, os Estados Unidos bombardearam o Irão. É difícil encontrar uma ilustração mais perfeita da instabilidade crónica que caracteriza este conflito desde o início das hostilidades em fevereiro.
Os Estados Unidos anunciaram ter realizado, na terça-feira, ataques qualificados como “proporcionais” contra o Irão, em resposta ao ataque a um helicóptero Apache americano no dia anterior sobre o Estreito de Ormuz. Trata-se de uma súbita escalada de tensões, quando o presidente americano havia afirmado anteriormente que um acordo para pôr fim à guerra no Médio Oriente estava próximo.
O contexto de uma guerra aberta
Para compreender estes novos ataques, é preciso recordar a magnitude do conflito aberto desde 28 de fevereiro. O Estreito de Ormuz tem experienciado, desde essa data, importantes perturbações geopolíticas e económicas na sequência de ataques militares conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, que resultaram, nomeadamente, na morte do Guia Supremo iraniano Ali Khamenei. Em resposta, o Irão lançou ataques de mísseis e drones contra bases americanas, o território israelita e outros Estados do Golfo, enquanto o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica alertava os navios para não atravessarem o estreito.
Em tempos normais, um quinto da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito transita pelo Estreito de Ormuz. Desde 1º de março, 16 navios mercantes foram alvo de ataques iranianos nas proximidades do estreito. Entre eles, petroleiros, cargueiros, rebocadores. A Organização Marítima Internacional regista pelo menos sete marinheiros mortos e três desaparecidos.
A escalada de 9 de junho
Os ataques de terça-feira inserem-se, portanto, numa dinâmica de tensões persistentes, pontuada por cessar-fogos frágeis e retomadas militares regulares. Sábado, 6 de junho, o exército americano já havia realizado vários ataques a instalações de radar iranianas, apesar do cessar-fogo entre os dois países, enquanto Israel continuava a bombardear o Líbano. «As forças americanas permanecem em alerta e prontas para continuar a defender-se contra a agressão iraniana», escreveu o Comando Central Americano.
A situação no Líbano, paralelamente, continua a degradar-se. Os habitantes de Tiro fogem massivamente da cidade, depois de um bombardeamento israelita ter matado pelo menos onze pessoas na terça-feira. O país do Cedro, já economicamente exausto, suporta parte das consequências diretas de um conflito que se desenrola muito acima dele.
A diplomacia em farrapos
Um projeto de acordo está atualmente em negociação entre os Estados Unidos e o Irã, focando notavelmente na extensão do cessar-fogo e na reabertura do Estreito de Ormuz. O Secretário de Estado americano Marco Rubio prometeu que a assinatura final poderia ocorrer “nas próximas horas”. Teerã sugere que a questão nuclear não faria parte desta nova versão. Um acordo sem a questão nuclear: o mesmo que dizer que se trata o sintoma sem tocar na doença.
O que impressiona, ao observar esta sequência de fora, é a velocidade com que os anúncios diplomáticos e os ataques militares se sucedem, por vezes no mesmo intervalo de 48 horas. Cada declaração de paz iminente é seguida por um novo incidente armado. Cada cessar-fogo é rompido antes mesmo de ter sido assinado.
A opinião da redação — Théodore Mécanis
A retórica da paz iminente associada a ataques diários já não é uma contradição — é uma estratégia de comunicação. Atacar enquanto se anuncia a paz permite manter a pressão sem assumir a imagem de um beligerante irrazoável. O problema é que as populações civis libanesas, os marinheiros desaparecidos no mar de Omã e as economias dependentes do petróleo do Golfo, esses não vivem na retórica. Eles vivem nas consequências. A Copa do Mundo começa amanhã nos Estados Unidos, país anfitrião que bombardeia em paralelo. A história reterá essa ironia com o sério que ela merece.
Para reter
- Ataques americanos "proporcionais" ao Irão em 9 de junho, após o ataque a um Apache sobre Ormuz.
- 16 navios mercantes visados pelo Irão perto do estreito desde 1º de março; 7 marinheiros mortos, 3 desaparecidos.
- 20% do petróleo e GNL mundiais transitam por Ormuz em tempos normais.
- Em Tiro (Líbano), 11 mortos num bombardeamento israelita na terça-feira.
- Marco Rubio anuncia um acordo "nas próximas horas" — sem componente nuclear.





